Entendendo a dor
"Minha coluna está gasta?": dez crenças sobre dor nas costas à luz da ciência
Um editorial do British Journal of Sports Medicine reuniu dez ideias comuns sobre dor lombar e as confrontou com a evidência. O retrato que aparece é o de uma coluna bem mais forte do que costumamos imaginar.
16 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Tem gente que chega à primeira consulta falando da própria coluna como quem descreve um objeto frágil. "Não posso mais me abaixar." "Meu disco está gasto." "Tenho que manter o abdômen contraído o tempo todo, senão a lombar sai do lugar." Muitas vezes a pessoa já parou de carregar o neto, de cuidar do jardim ou de correr. E nem sempre parou por causa da dor em si: parou por medo do que a dor poderia significar.
Faz sentido que seja assim. Essas ideias chegam de todo lado. Vêm de um laudo cheio de termos assustadores, de um conselho bem-intencionado da família, de propagandas e, às vezes, até de nós, profissionais de saúde. Quando algo dói nas costas, imaginar uma peça se desgastando ou saindo do lugar é a explicação mais intuitiva que existe.
O que a pesquisa das últimas décadas vem mostrando é que essas crenças não são neutras. Elas estão associadas à forma como a dor evolui.
Um editorial que virou referência
Em 2020, um grupo de pesquisadores liderado pelo fisioterapeuta Peter O'Sullivan, da Curtin University, na Austrália, publicou no British Journal of Sports Medicine um editorial curto, em tradução livre "De volta ao básico: 10 fatos que toda pessoa deveria saber sobre dor nas costas"¹. Não é um estudo novo. É um texto de posicionamento que organiza o que a literatura já vinha apontando, acompanhado de um infográfico pensado para o público. Mencionei esse editorial de passagem no texto sobre o Dia Mundial da Coluna e o cuidado de todo dia. Aqui ele ganha espaço próprio.
Os autores partem de um cenário conhecido: a dor lombar é a principal causa de incapacidade no mundo e costuma receber cuidados caros, pouco eficazes e às vezes prejudiciais. Eles lembram que crenças pouco úteis sobre a dor nas costas estão associadas a mais dor, mais incapacidade, mais faltas ao trabalho, mais uso de medicação e mais procura por atendimento. E essas crenças são comuns tanto em quem tem dor quanto em quem nunca teve.
A proposta do editorial é confrontar dez dessas crenças com dez fatos. Agrupei os pares por tema, porque eles conversam entre si.
Primeiro, um cuidado importante
Os autores deixam claro que os fatos valem depois que sinais de alerta e doenças graves foram afastados. E isso não é detalhe. Perda de força que vai piorando, alteração no controle da urina ou das fezes, dormência na região da virilha e do períneo, febre, perda de peso sem explicação, história de câncer ou um trauma importante pedem avaliação médica antes de qualquer outra coisa. É por isso que a avaliação vem antes do tratamento.
Afastadas essas situações, que são a minoria, o retrato muda bastante.
"É grave e vai piorar com a idade"
A primeira crença é a de que dor nas costas costuma ser sinal de algo sério. A segunda, a de que ela tende a se tornar permanente e a piorar com os anos.
O editorial responde que a dor lombar, em regra, não é uma condição grave nem ameaça a vida. A maioria dos episódios melhora, e envelhecer não significa, por si só, ter uma coluna que dói cada vez mais. Uma dor persistente pode assustar, e esse susto merece ser levado a sério. Só que susto e perigo são coisas diferentes.
"Se dói, é porque tem dano"
Aqui aparecem três crenças que andam juntas: a de que a dor persistente sempre reflete lesão no tecido, a de que é preciso um exame de imagem para achar a causa e a de que carregar peso e dobrar a coluna repetidamente vai desgastando a estrutura.
Sobre o dano, o editorial afirma que alguns fatores estão mais fortemente associados à dor persistente do que o dano no tecido: uma visão negativa da própria dor, o medo que leva a evitar movimentos, a expectativa ruim de recuperação e as estratégias pouco eficazes para lidar com a dor.
Sobre os exames, a posição é que a imagem não define o prognóstico do episódio atual nem a chance de incapacidade futura, e não melhora os resultados clínicos. Isso conversa com uma revisão bem conhecida segundo a qual achados de "desgaste" no disco são frequentes em pessoas sem nenhuma dor, e mais comuns conforme a idade avança². Já escrevi sobre isso com mais detalhe em o que o laudo da ressonância não conta. O exame tem seu lugar quando existe uma pergunta específica a responder, ao lado da avaliação clínica.
E sobre a carga: segundo os autores, movimento e carga na coluna são seguros e ajudam a construir resistência estrutural quando aumentam de forma gradual. Como outros tecidos do corpo, a coluna se adapta ao uso.
Postura e "core": os dois suspeitos de sempre
Talvez estas sejam as crenças mais difundidas: a de que a dor vem da má postura ao sentar, ficar em pé e levantar peso, e a de que um "core" fraco causa dor, enquanto um abdômen forte protege a coluna.
O editorial afirma que a postura ao sentar, ficar em pé e levantar peso não prevê o surgimento da dor lombar nem a sua persistência. Sobre o core, diz que a fraqueza não causa dor lombar e que algumas pessoas com dor tendem a contrair demais esses músculos. Manter o tronco forte é bom. Saber relaxá-lo quando não é necessário também é.
Essa última observação aparece muito no consultório. Quem anda "travado", segurando o abdômen o dia inteiro para proteger a lombar, muitas vezes está gastando energia numa vigilância que mantém o sistema em alerta. Na minha leitura, essa tensão também faz parte do recado.
"Doeu no exercício, então parei"
Duas crenças tratam do movimento: a de que dor durante o exercício é sempre sinal de lesão, e a de que uma crise significa dano e pede repouso.
O editorial responde que exercício e movimento graduais, em todas as direções, são seguros e saudáveis para a coluna. Diz também que as crises estão mais relacionadas a mudanças de atividade, estresse e humor do que a dano estrutural.
Quem já teve uma crise depois de uma semana difícil, de noites mal dormidas ou de uma mudança brusca na rotina reconhece esse padrão.
"O que resolve é remédio forte, infiltração ou cirurgia"
A décima crença é a de que medicação forte, infiltrações e cirurgia são eficazes e necessárias para tratar a dor lombar.
A resposta dos autores é que o cuidado eficaz costuma ser relativamente barato e seguro. Ele inclui educação centrada na pessoa, que favoreça uma visão positiva da própria coluna, e orientação para cuidar da saúde física e mental: atividade física, vida social, sono, peso saudável e permanência no trabalho. É o mesmo caminho apontado pelas diretrizes clínicas de qualidade para dor musculoesquelética³.
Isso não quer dizer que infiltração ou cirurgia nunca tenham lugar. Há casos em que têm, e essa decisão é médica. O ponto é que elas não são o caminho padrão para a maioria das pessoas com dor nas costas. Quando entram em cena, a escolha segue critérios claros, que comentei no texto sobre como se decide se um caso de coluna é cirúrgico.
A dor continua sendo mensageira
Quem acompanha este blog sabe que, para nós, a dor é uma mensageira: um sinal de que algo pede atenção. E este artigo corrobora esta ideia, e ajuda a ler melhor o recado.
O equívoco comum é achar que o recado é sempre o mesmo, "tem uma peça estragando". Muitas vezes a mensagem fala de outras coisas: de uma coluna que ficou sensível, de uma carga que mudou rápido demais, de sono, de estresse, de medo de se mexer. A luz acesa no painel continua importante. Ela só pode estar avisando sobre coisas diferentes, e entender qual é o aviso é o trabalho da avaliação.
E onde entra a quiropraxia?
Os autores alertam que crenças pouco úteis podem levar as pessoas a buscar intervenções para aliviar sintomas, como remédios, terapias passivas e infiltrações, ou para "corrigir" posturas e estruturas supostamente danificadas. Concordo com o alerta. Na QualiPraxis, o ajuste não é apresentado como forma de "colocar a vértebra no lugar" ou de consertar uma peça. Ele é uma ferramenta dentro de um processo que inclui formular uma hipótese para aquela dor, devolver confiança ao movimento e acompanhar a evolução de forma mensurável. O objetivo é ajudar o corpo a recuperar função e autonomia, e não criar dependência de quem cuida.
Por isso, duas perguntas guiam o que fazemos, e valem para qualquer tratamento que você esteja considerando: qual é a hipótese para a causa da minha dor? E como vou saber se estou realmente melhorando?
Para terminar
O editorial se encerra com um chamado aos profissionais: assumir a responsabilidade de educar pacientes e o público com base em evidência, explorando os medos e as crenças de cada pessoa, e não apenas tratando o sintoma.
Se você convive com dor nas costas e reconheceu alguma dessas ideias em você, talvez valha começar revendo o jeito de olhar para a própria coluna. Quando fizer sentido conversar sobre o seu caso, com uma avaliação cuidadosa e espaço para as suas dúvidas, estamos em Gramado e em Caxias do Sul.
Referências
- O'Sullivan PB, Caneiro JP, O'Sullivan K, Lin I, Bunzli S, Wernli K, O'Keeffe M. Back to basics: 10 facts every person should know about back pain. Br J Sports Med. 2020;54(12):698-699. doi:10.1136/bjsports-2019-101611
- Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-816. doi:10.3174/ajnr.A4173
- Lin I, Wiles L, Waller R, et al. What does best practice care for musculoskeletal pain look like? Eleven consistent recommendations from high-quality clinical practice guidelines: systematic review. Br J Sports Med. 2020;54(2):79-86. doi:10.1136/bjsports-2018-099878
Escrito por
Marcos Reis
Quiropraxista da QualiPraxis, em Gramado e Caxias do Sul. Escreve a partir dos casos reais e das conversas do consultório. Conheça a trajetória do Marcos.
